4 de agosto de 2016
O Ministério Público
Federal no Rio Grande do Norte (MPF/RN) apresentou as duas últimas ações dentro
da chamada Operação Pecado Capital, que desbaratou um esquema de corrupção no
Instituto de Pesos e Medidas do Rio Grande do Norte (Ipem/RN), cujo
funcionamento se deu principalmente durante a gestão do ex-diretor geral
Rychardson de Macedo, entre abril de 2007 e fevereiro de 2010. Trata-se de uma
denúncia contra o ex-deputado Francisco Gilson de Moura e outras quatro pessoas
e uma ação por improbidade contra o ex-parlamentar e um desses envolvidos.
Além do ex-deputado,
também são acusados na denúncia o filho da ex-governadora Wilma de Faria, Lauro
Maia; o próprio Rychardson de Macedo; o advogado Fernando Antônio Leal Caldas
Filho e seu pai, Fernando Antônio Leal Caldas. Já na ação por improbidade,
Gilson Moura figura ao lado apenas deste último, pois os demais denunciados já
respondem pelos mesmos fatos na esfera cível.
As ações demonstram
que Gilson Moura recebeu R$ 1,2 milhão em propina, inclusive por meio de
“doações eleitorais oficiais”, através do uso de veículos contratados pelo
instituto e desviados para utilização em campanha, bem como mediante custeio de
despesas eleitorais não informadas nas prestações de contas (“caixa dois”). Os
ilícitos envolvem tanto as eleições de 2008, quando concorreu à Prefeitura de
Parnamirim; quanto as de 2010, quando se reelegeu para a Assembleia.
Gilson Moura foi quem
indicou Rychardson para a diretoria do Ipem e se tornou - junto de Lauro Maia -
um dos principais beneficiários dos desvios de verbas. Fernando Antônio Leal
Caldas Filho é apontado pelo MPF como peça importante desse grupo, tendo
servido de elo entre Lauro e o ex-deputado. Já Fernando Leal, o pai, contribuiu
com as irregularidades obtendo documentos falsos.
Valores – O MPF
indica que Gilson Moura recebeu R$ 30 mil mensais, durante 34 meses, desviados
do instituto. Desse dinheiro, parte foi revertida para suas campanhas. Fora o
repasse “regular”, foram pagos R$ 46.300 por meio de oito supostas “doações
eleitorais oficiais” de veículos, em 2008. Os automóveis, na verdade, eram
fruto de um contrato de locação do Ipem.
Fernando Leal Caldas
é denunciado exatamente por ter ajudado na obtenção de notas e recibos falsos
para simular essas supostas doações de automóveis. De acordo com depoimentos,
coube a ele gerenciar meios para tentar justificar a utilização ilícita dos
veículos alugados pelo Ipem. Alguns supostos doadores confessaram que assinaram
a “doação” de veículos que nem lhes pertenciam e outros afirmaram nunca ter
feito doações, embora seus nomes estejam na prestação de contas, pois assinaram
recibos e contratos “a pedido de Fernando Leal”. Um empresário, que alugou dois
veículos à campanha, foi registrado como tendo doado cinco.
O dinheiro desviado
não foi todo para campanhas. Algumas parcelas da propina foram usadas por
Gilson Moura na aquisição de bens de luxo, incluindo um terreno no Condomínio
Bosque dos Poetas, em Parnamirim - adquirido por R$ 206.251 totalmente em
valores em espécie - e um apartamento no flat Intercity Premium, em Natal,
ambos registrados em nome de terceiros. Além disso, foram comprados dois
veículos da marca Land Rover. Um deles teve uma parcela de seu financiamento,
no valor de cerca de R$ 29 mil, quitada por empresa de lavagem de dinheiro de
Rychardson de Macedo, enquanto o outro teve parte de seu preço pago com R$ 60
mil de verbas retiradas do Ipem.
O ex-deputado recebeu
ainda R$ 167.600 por meio de 23 supostas “doações eleitorais oficiais” feitas
através de depósitos em espécie, para suas campanhas eleitorais. Dinheiro esse
que na verdade consistia em propina oriunda do esquema criminoso, maquiada
através de recibos
falsos. Até fogos de artifício, trios elétricos e pesquisas eleitorais foram
pagos com recursos do Ipem, sem que tais despesas fossem declaradas nas
prestações de contas eleitorais.
Lavagem de dinheiro -
Lauro Maia e Fernando Antônio Leal Caldas Filho foram denunciados por lavagem
do dinheiro desviado do contrato de locação de automóveis do Ipem. A empresa
contratada recebia valores superfaturados em suas contas bancárias, sacava a
quantia excedente em espécie e a repassava aos acusados, que chegaram a
depositar parte do montante em contas bancárias pessoais.
A movimentação de
valores em espécie foi a estratégia usada para ocultar a origem ilícita do
dinheiro. Uma parcela desses valores, no montante de R$ 27 mil, foi repassada,
como doação eleitoral, para a conta de campanha de Lauro Maia a deputado
estadual, nas eleições de 2010.
Ações - Até março de
2015, já haviam sido ajuizadas 102 ações pelo MPF, apontando o envolvimento de
79 pessoas e 24 empresas nas irregularidades cometidas no Ipem. Dentre os
denunciados estão também dirigentes do Instituto Nacional de Metrologia
(Inmetro), como o ex-auditor-chefe José Autran Teles e o ex-diretor
administrativo-financeiro Antônio Godinho.
As ações, todas de
autoria do procurador da República Rodrigo Telles, somam R$ 4,2 milhões em
pedidos de ressarcimento aos cofres públicos, em valores ainda não corrigidos.
Esse dinheiro foi desviado através de ilegalidades como a contratação de
“funcionários fantasmas”, concessão indevida de diárias, realização de fraudes
em licitações e em contratos administrativos, além da cobrança direta de
propina, superfaturamento de gastos e pagamento por serviços não prestados.
Os ganhos ilícitos
decorrentes de dois dos contratos que envolviam maior volume de recursos
públicos no Ipem – um de fornecimento de combustíveis e outro de locação de
veículos – foram “repartidos” entre os envolvidos, ficando Rychardson e Gilson
Moura com o de fornecimento de combustíveis e Fernando Caldas Filho e Lauro
Maia com a verba desviada do contrato de locação.
“Lauro Maia e
Fernando Antônio Caldas Filho garantiram a conivência do Governo do Estado do
Rio Grande do Norte com a verdadeira pilhagem aos cofres públicos promovida na
autarquia estadual no período, até mesmo porque ambos se beneficiavam do
esquema”, destaca o MPF.
Memória - Em 2011, o
Ministério Público Estadual do Rio Grande do Norte deflagrou a “Operação Pecado
Capital” para apurar o desvio de recursos públicos no Ipem/RN. Por envolver
recursos federais, repassados pelo Inmetro, o caso passou à competência da
Justiça Federal. O MPF deu continuidade às investigações e, de 2012 a 2013,
ajuizou 12 denúncias e 10 ações por improbidade.
Em novembro de 2013,
alguns dos acusados firmaram acordo de colaboração premiada e apontaram o
envolvimento direto do então deputado estadual Gilson Moura e do filho da
ex-governadora, Lauro Maia. Rychardson de Macedo confirmou, assim como outros
ex-diretores do Ipem, que o deputado e Lauro, juntos com o advogado Fernando Antônio
Leal Caldas Filho, eram os destinatários finais da maior parte dos recursos
desviados do instituto, entre 2007 e 2010.
Pedidos – Na nova
ação cível, Gilson Moura e Fernando Caldas, o pai, responderão na Justiça por
atos de improbidade administrativa (65 ao todo, no caso do ex-deputado, e oito
envolvendo Fernando) e o MPF requer a condenação de ambos ao ressarcimento dos
prejuízos (Gilson R$ 1.233.900 e Fernando R$ 46.300); perda da função pública
que eventualmente estejam ocupando; suspensão dos direitos políticos; pagamento
de multa; e proibição de contratar com o Poder Público.
Na ação penal, Gilson
Moura deve responder por associação criminosa (artigo 288 do Código Penal),
corrupção passiva (artigo 317) e lavagem de dinheiro (artigo 1º, inciso V, §
4o, da Lei n. 9.613/1998). Lauro Maia responderá por associação criminosa,
corrupção ativa (artigo 333 do Código Penal) e lavagem de dinheiro, mesmos
crimes pelos quais responderão Fernando Antônio Leal Caldas e seu filho.
Rychardson poderia responder por corrupção ativa, mas o MPF requer a aplicação
em seu favor do perdão judicial, previsto no acordo de colaboração premiada.
Assessoria de
Comunicação
Procuradoria da República no RN
Fones: (84) 3232-3960 / 3901 / 9119-9675
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